Sónia Cassule
LUANDA
O baixo salário dos professores está a agitar a Universidade Kimpavita. Há docentes que querem desistir. O reitor lamenta o reduzido orçamento. Fala-se mesmo da suspensão do curso de Tecnologia. Há anos, o ensino superior no Uije limitava-se a ser ministrado em estabelecimentos de ensino, que funcionavam como pólo da Universidade Agostinho Neto. O programa do Governo em proporcionar uma universidade à antiga cidade de Carmona é de longe o mais ambicioso para os uijenses que, nas décadas da fervorosa guerra civil, saltavam a fronteira para poderem estudar no ex-Zaíre, hoje Congo Democrático. Mas não há bela sem senão. E o senão aqui é preocupante: há professores universitários com salário mensal de 15 mil kwanzas. Por ironia, existem livros nas livrarias de Angola (que servem de manuais de aulas aos citados professores) com preços iguais a estes salários e até superiores.
De passagem por Luanda, vindo do Uije, para contactos com as autoridades centrais, Carlos Diakanawa, reitor da Universidade Kimpavita, confirmou a existência destes salários e assume que está a envidar esforços para ultrapassar o problema. Diakanawa garante não ter tido mãos a medir, desdobrando-se entre as cidades de Luanda e do Uije, quase sempre de carro, percorrendo mais de centenas de quilómetros. “Neste momento, o processo de cada docente já se encontra a ser analisado no Ministério. Aguardamos também pela resposta da Secretária de Estado do Ensino Superior”, disse ao SE Carlos Diakanawa.
Um décimo do normal
A situação, vivida pelos professores, remonta ao tempo em que os estabelecimentos de ensino funcionavam como meras unidades orgânicas da Universidade Agostinho Neto. A tabela salarial, a nível nacional, de um professor titular (equivalente a professor catedrático) é de 271.819.80 kwanzas, ao passo que o assistente estagiário (grau mínimo) anda à volta dos 124.185.60 kwanzas por mês. Conhecedores da citada tabela, segundo o reitor, “muitos professores pretendem trocar o ensino universitário pelo de base, onde o salário, curiosamente, é maior”. Segundo Mbunga N’Zinga David, pró-reitor para a Área da Cooperação da Universidade, caso não consiga aumentar os subsídios, a Kimpavita vai ser obrigada a suspender o trabalho de 15 professores. “Com a saída destes, a Universidade Kimpavita vai ficar reduzida a 10 docentes efectivos”, revela Mbunga N’Zinga David, adiantando que, caso não se arranje uma solução, “corre-se o risco de acabar com o curso de Tecnologia”. E há relatos de professores que são obrigados a aceitar o reduzido salário. É o caso de Masizinga Lando, 43 anos, pai de dois fi lhos, formado pela Universidade de Kinshasa.