Quinta-feira, 23 Fevereiro 2012 | 1:09
Min:23º Max:31º
Luanda
PESQUISA
Os choques macroeconomicos
A espinhosa missão dos clusters
Histórias e imagens que marcaram a semana!
1ºCaderno
 
4/8/2010 
Álvaro Sobrinho “Há uma política restritiva que asfixia os bancos” 
Pedro Narciso

LUANDA

Álvaro Sobrinho defende uma política monetária mais fl exível que não condicione a actividade bancária.

O BESA recebeu, este mês, oprémio “Best Bank in Angola 2010”, pela revista Global Finance.

O banco cresceu assim tanto em relação à concorrência?

Não tenho dados sobre os outros bancos. No momento em que falamos,julgo não ter saído ainda o Relatório e Contas dos outros bancos. Mas penso que, em termos de conhecimento global, há instituições angolanas que devem ter informações mais precisas.

Mas o prémio é justo ou não?

Acho que os critérios de avaliação são objectivos. Não têm características de subjectividade. São organizações e instituições internacionais que o fazem, há um júri próprio e, portanto, há determinados critérios para avaliar a gestão das instituições que eles ponderam para atribuir este prémio. Não só em relação a Angola, mas também em relação a todo o mundo. Como sabe, a Global Finance atribui prémios em todos os continentes, com critérios objectivos. Não há subjectividade nesta atribuição.

O prémio reconhece então o crescimento e a rentabilidade dos activos do BESA, é isso?

Houve um crescimento acentuado do activo. Em Novembro e Dezembro já se encontrava em segundo lugar em termos de activo total e em termos de rentabilidade final. E resultados, o banco teve um crescimento assinalável.

O que isso significa?

Em termos de activos o banco cresceu acima dos 60%. Já em resultados andou à volta dos 70%.

E que previsões aponta para este ano?

Posso falar do orçamento que as instituições fazem com base em determinados pressupostos de crescimento. Como sabe, o Orçamento do Estado prevê um crescimento em torno de 8,5%; o Fundo Monetário Internacional é mais optimista e prevê o crescimento em 10% e, com estes cenários, podemos estar optimistas em relação ao crescimento do PIB angolano que depois terá reflexo em toda economia. Mas isso também vai depender das medidas e da regulamentação feitas pelo Estado em termos de política macroeconómica. No primeiro trimestre tivemos grandes restrições na política monetária e, no entanto, o nosso rendimento depende muito de se restabelecer a confiança e o consumo dos agentes económicos.

Não poderá ser traído pelo plano da indústria que pode não ser imediato por causas das falhas de energia?

Penso que não. Nós crescemos durante estes anos todos até 2008 acima dos dois dígitos. E não tínhamos energia. Tivemos grande retracção em 2009, ano em que praticamente não crescemos, e mesmo assim tivemos níveis de inflação considerados elevados. Houve uma perda de compra do cidadão.

Mas a verdade é que começamos bem em 2010

As receitas fiscais, em moedas estrangeiras por causa daquilo que é o nosso produto de exportação natural, o petróleo, aumentaram, e há uma expectativa que a retoma em Angola se faça mais rapidamente. Estamos todos dependentes da política macroeconómica e daquilo que nós temos, em termos de compromissos internacionais, para poderemos ver. Os pressupostos de base são óptimos em termos de receitas fiscais e há probabilidade de crescimento de Angola. Vamos ver se são executáveis ou não. Se forem executáveis, vamos ter um ano extraordinário. Se não conseguirmos executar, então vamos ter um ano atípico.

Já começa a haver uma recuperação a nível mundial…

E na própria África subsariana já há sinais de recuperação económica.

Fala-se dos enormes gastos governamentais…

Fala-se muito nisso, mas não afecta, de maneira alguma, o investimento público. Sabe que o elemento dinamizador de uma economia tem a ver com o investimento público. Ele é que arrasta o investimento privado. Não havendo investimento público, com certeza, não há investimento privado. Portanto tem que se dar um sinal aos investidores no sentido de que Angola continua a ser um país atractivo para o investidor. Para isso, Angola tem que ter políticas monetárias flexíveis que permitam às instituições financeiras desempenhar o seu papel que é o de financiar a economia real.

Acha que não há políticas monetárias flexíveis?

Acho que em 2009 vivemos uma política monetária extremamente restritiva que levou a uma refracção em relação às instituições financeiras. O ganho na imagem que tínhamos obtido nos anos anteriores ficou esbatido. Não na totalidade, mas houve algum revés. Portanto, cabe a todas as instituições bancárias e agentes económicos restabelecer essa confiança.

A imprensa disse que os bancos angolanos têm servido de almofada aos de Portugal…

Acho que isto é um estigma. Estamos a olhar para a economia de mercado, não podemos olhar para este tipo de análise. Dizer que servem de almofada aos bancos que têm cento e tal anos é demasiado. Temos bancos de capital estrangeiro, em Angola, que são responsáveis, de alguma maneira, pelo crescimento do sector bancário angolano. Acho que é neste prisma que nos devemos cingir. O facto dos bancos em Angola estarem a ter um crescimento e terem um peso significativo dentro do grupo a que pertencem é bom para o país. Não vamos estigmatizar coisas que não têm razão de ser.

Mudemos então de assunto: o BESA tem um único formato no crédito habitação?

Nós temos algum crédito de habitação, mas não há uma taxa de crédito de habitação única. Sabe que isso varia muito com as garantias que são dadas aos bancos. Posso dizer que não há taxas especulativas no BESA.

Posso deduzir das suas palavras que há um concepção de crédito limitado.

O crédito é limitado. Porque se fosse ilimitado toda gente tinha crédito. Porque os recursos das pessoas também são limitados.

Há quem diga que apenas cinco a sete por cento da população é bancarizada. É verdade?

Não se sabe. Sabe-se somente que pouca população é bancarizada. E para haver crédito tem de haver depósitos.

As expectativas do depósito e do crédito são iguais…

Quem tem o seu dinheiro no banco espera receber mais em termos de remuneração; quem pede dinheiro ao banco espera pagar menos. É este equilíbrio que temos de ter. Além das reservas obrigatórias que os bancos têm que ter no Banco Central. Sem isso, os bancos têm que fazer um esforço incrível.

De 2006 a 2008, o mercado era extremamente competitivo nas taxas de juros de crédito.

O que faz disparar as taxas de juros de crédito é a escassez de dinheiro dos depósitos. Os depósitos da banca praticamente não cresceram, o que não aconteceu em anos anteriores. Em anos anteriores, os depósitos cresciam numa média de 30 a 40% ao ano.

Temos aqui a lei da procura e da oferta.

Obviamente que as taxas disparam. É como os produtos. A inflação é também criada por este desequilíbrio. O que se passa é que há muita gente a pedir crédito, mas com poucos recursos para recorrer a esse crédito.

Acha que a concepção de crédito à habitação é limitada por causa dos preços altos das casas, por exemplo?.

Temos que ver a economia no seu todo. Estamos a restringirmos à economia angolana e às instituições  financeiras de crédito.

Olhemos então para economia angolana…

Temos que olhar para as normas, para a lei. E a lei é cada vez mais restritivas para os bancos, essas restrições são ainda mais severas em relação aos bancos, aos quais impõe graves condições para a concepção de crédito. Portanto, nós hoje temos uma rigidez monetária que nos obriga a ter muito dinheiro paralisado, o que nos impede de dar crédito….

A que dinheiro paralisado se está a referir?

Aos 30% dos recursos dos clientes que têm que ficar no Banco Central. Quem tem 100 dólares depositados, sabe que 30 ficam parados. Portanto não há a possibilidade de recursos que se aliem à politica restritiva e legal para se dar crédito. O Banco Central exige muito dos bancos comerciais principalmente no que toca a garantias.

A lei é só rígida em relação às provisões de crédito?

Não só. E ao consumo de capital que obriga os bancos a terem pouca margem de manobras para as expectativas que são criadas. Os países mais desenvolvidos têm taxas de bancarização e depósitos de quase 100% da população. Nós temos 7%. Não é possível. O Banco Central, ao ter 30% dos recursos, no fundo, está a enxugar liquidez aos bancos e até tirar dinheiro aos bancos que poderia ser usado no crédito. E poderia ser injectado na economia.

Reivindica por um equilíbrio?

Devia haver um equilíbrio na circulação da moeda. Não devia haver reservas obrigatórias fixas. Elas deviam ser variáveis em função da liquidez no mercado. Nós temos uma política monetária restritiva de liquidez sem ter dinheiro. Até porque o investimento público é pouco para a dimensão que se esperava para o crescimento. Por causa da crise. E o investimento privado acompanha. Não há criação de riqueza, nem de postos de trabalho. Há uma retracção económica. E há uma retracção monetária. Portanto, havendo uma retracção monetária, não há dinheiro a circular.

Qual é a percentagem que propõe ao Banco Central?

Não tenho. Pode ser que 30% seja a percentagem certa, mas também pode ser que 10% seja a percentagem mais correcta em determinado momento da economia.

Ou seja…

Se não há dinheiro não há liquidez, logo não faz sentido ter reservas mais altas. Se há muita liquidez tem sentido ter reservas mais altas. O exemplo que temos é o Brasil. Teve reservas altíssimas, mas depois teve que ajustar as suas reservas em função da liquidez que tinha no mercado. Quando há muito dinheiro para não gerar inflação, aumenta-se as reservas; ora não havendo dinheiro para tirar ao mercado como é que se faz?

O BESA já se está a preparar para a abertura da Bolsa?

O BESA está preparado para entra  na Bolsa, não está a preparar-se. Acho que todos os bancos também estão. Devo dizer que o BESA tem todas as condições obrigatórias para a cotação na Bolsa, nomeadamente, as contas perfeitamente auditadas e de todos os exercícios.

Qual é a sua opinião sobre a Tolerância Zero contra a corrupção?

É um alerta para que se mude de comportamentos. Acho muito bem que as pessoas devam ser responsabilizadas pelos seus actos.

Está preocupado com o desfalque financeiro no BNA?

Enquanto cidadão preocupo-me. Não o preocupa a si? Mas enquanto presidente de uma instituição financeira não respondo a essa questão.

Responda, então, enquanto cidadão.

Enquanto cidadão preocupa-me com certeza. O BNA é uma instituição de supervisão. Diríamos que está ao nível do polícia em relação ao cidadão ou ainda dos tribunais em relação ao cidadão. O BNA, na actividade bancária, exerce um papel de fiscalizador. Portanto tudo que possa acontecer ao fiscalizador e que possa beliscar a sua imagem tanto no plano interno como internacional, preocupa qualquer pessoa.

Tem de ser normalizada.

Acho o que chefe do Governo quis dizer exactamente isso. É uma mensagem muito clara relativamente à responsabilização das pessoas nos actos que praticam. Hoje temos uma desresponsabilização muito grande em relação à gestão da coisa pública. Não são todos, mas temos muitos gestores que não se sentem responsáveis por nada.

0 comentários 15:14
Login:
E-mail
Password
OK
COMENTÁRIOS
Esta notícia ainda não tem comentários
INDICES
ÍndiceHoraValor%
PSI 2012:10 PM559,798.00-0.07
Bovespa3:15 PM66,092,773.00-0.17
HANG SENG3:01 AM21,549,279.00+0.00
FTSE 10011:35 AM591,655.00-0.20
DAX11:45 AM684,387.00-0.93
NASDAQ5:30 PM293,317.00-0.52
Dow Jones7:49 PM952,868.00-0.27
NIKKEI2:00 AM2,403,587.00+0.93
SSE Composite12:06 PM344,737.00-0.52
Brevemente online