Mário Franco
CORRESPONDENTE EM LISBOA
Em 2010 a marca conhecida pela cor laranja e que nasceu no século XIX pela mão de Thierry Hermès a vender estribos e arreios entrou, pela primeira vez, no universo masculino. A mítica francesa Hermès, dos perfumes, malas e acessórios de luxo, abriu em Fevereiro último na cosmopolita Madison Avenue, em Nova Iorque, a primeira loja para homens. Um passo no mundo do calçado, lenços, gravatas e perfumes masculinos numa altura em que a multinacional, apresenta pela mão do responsável máximo Patrick Thomas uma invejável folha de resultados referente a 2009. A Hermès, entre as 70 marcas mais valiosas do mundo, cresceu em vendas 8,5% em plena crise global. O lucro líquido rondou os 388 milhões de dólares. A marca, aponta, agora, um valor de mercado global superior a dez mil milhões de dólares.
O grupo progrediu a nível mundial com excepção do Japão onde a marca regrediu nas vendas. O “país do sol nascente” é, por sinal, o maior mercado para a marca. Uma mancha negra num contexto asiático onde a Hermès assina a palavra expansão, especialmente no mercado chinês, em Hong Kong e Macau. Uma geografia dos artigos de luxo que também se expande para a Hermès na Rússia.
América do Norte e Europa foram regiões, igualmente, em crescimento para a empresa que ao longo de décadas seduziu com os seus lenços pintados à mão figuras como a monarca Isabel II de Inglaterra, as actrizes Audrey Hepburn e Catherine Deneuve e, mais recentemente, Hillary Clinton, Sharon Stone e Madonna. Um luxo assinado por estilistas como Jean Paul Gautier e Verónique Nichanian que não se mede apenas por quem usa os lenços mas também pelo número de pessoas que os compram. A cada 25 segundos é vendido um novo exemplar a mais de 300 dólares a unidade.
Uma linha de venda e produção que em 2009 criou 163 novos postos de trabalho hiperespecializados, contando actualmente com perto de dois mil trabalhadores em todo o mundo. Contas feitas são perto de 300 lojas (desde a fundação em 1837 nunca encerrou nenhuma) em 60 países. Uma estratégia de abertura de novos espaços limitada a sete/ oito lojas por ano. A estratégia da Hermès é “manter valor, sem volume”, como sublinhou recentemente em entrevista Patrick Thomas. Apostada no crescimento dos mercados norte-americano e europeu, a Hermès aponta a Oriente. No próximo Outono vai lançar uma marca chinesa, a Shang Xia, apostando no vestuário e mobiliário. Um lance na diversificação que levará a Hermès nos próximos anos a entrar em mercados não tradicionais no seu portfólio. Ainda de acordo com Patrick Thomas, a Hermès passará a desenvolver encomendas à medida dos clientes.
Uma história desde os arreios ao helicópter
A II Guerra Mundial impôs-lhe a cor que se tornou marca de uma empresa que criou um império sobre o couro. Nasceu em 1837 quando Thierry Hermès abriu uma loja em Paris chamada Caléche. Vendia acessórios em couro: baús, selas, rédeas, estribos, assim como luvas, botas e porta-moedas.
Em 1923 já com o nome Hermès, inspirada no deus grego dos negócios, a loja lança uma novidade: as malas com fecho de correr. Ainda na década de 1920, o neto do fundador, Émile- Maurice, começou a desenhar roupas feitas de couro de veado.
Em 1929 é lançada a primeira colecção feminina. A empresa torna-se famosa graças a dois produtos: os lenços artesanais e as bolsas Kelly (1935), apelidadas pela estrela da monarquia europeia, Grace Kelly.
As restrições impostas pela II Guerra Mundial haviam de ditar uma das imagens de marca da Hermès: a cor laranja, única disponível para aplicar nos artefactos produzidos. Quando Émile-Maurice morre em 1951 o seu genro, Robert Dumas, assume o comando da marca. É ele o responsável pela introdução das gravatas, malas de viagem, toalhas de praia e pelo primeiro perfume da marca, o Eau d´Hermès. Já nos anos de 1970 é criado o departamento Maison, na loja de Fraubourg, em Paris, com a venda dos primeiros conjuntos de toalhas impressas. Ficam conhecidas como Léopards. Ainda na década de 70 a Hermès abre lojas nos Estados Unidos, Japão e Europa.
O ano de 2005 marca o lançamento da empresa na internet. É oficialmente apresentada a página de vendas on-line da Hermès. Os produtos são entregues inicialmente em França, Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha. Em 2007 a empresa lança-se numa nova área. Apresenta um dos helicópteros mais sofisticados do mercado, o EC135, com o interior concebido por um designer italiano. Os bancos são forrados a pele. “Um salão de voo”, como define a marca actualmente liderada por Patrick Thomas, sucedendo a Jean-Louis Dumas que se retirou em 2006.