Melvin Muguemeti
CORRESPONDENTE EM MAPUTO
Mundial de Futebol deste ano na África do Sul dá a sua ajuda, mas o súbito interesse das grandes companhias aéreas pelo continente tem outras explicações, a começar pela escassa oferta que permite que sejam praticadas tarifas bem mais altas do que em outras rotas com a mesma distância. E com a crise de 2008-2009 a provocar uma queda de 3% do tráfego aéreo global, os 11% de aumento dos voos africanos é a prova de que um mercado em tempos negligenciado surge agora como uma aposta de futuro, que o digam a franco-holandesa Air France-KLM, que voa para 42 destinos em 33 países do continente, ou o grupo liderado pela alemã Lufthansa, que oferece 36 ligações em 31 países.
Mas nem só os europeus estão na corrida: a Emirates Airlines acrescentou recentemente o Senegal aos seus destinos, com Dacar a tornar-se a 19 cidade africana a ser servida pela companhia do Dubai. Segundo um estudo da Innovata, uma empresa de consultadoria em aviação sedeada em Londres, citado pelo ‘Wall Street Journal’, o crescimento do mercado africano explica-se desde logo pela sua fraqueza tradicional – apenas 5% do tráfego global. Mas é também essa a oportunidade de negócio. Numa época de grande concorrência, com as
companhias ‘low cost’ a causarem uma quebra generalizada de preços, África surge com um continente onde a oferta é ainda inferior à procura, o que permite praticar tarifas lucrativas e procurar destinos ainda mal explorados.
Os clientes são cada vez mais, desde os homens de negócios do mundo inteiro em busca de oportunidades em terras africanas até aos empresários locais com interesses no estrangeiro, passando pelas comunidades emigrantes que regularmente regressam ao seu país de origem e pelos turistas interessados nos safaris ou nas praias.
A luta das companhias
Também existem companhias aéreas africanas nesta luta pelos céus do continente. Segundo a Innovata, os voos inter-africanos cresceram 30% nos últi- mos cinco anos. South African Airways, Egyptair, Royal Air Maroc estão na linha da frente das empresas mais competitivas do sector a nível continental, tal como a Kenya Airways, velha aliada da KLM, e a Ethiopian Airlines, que fez de Adis Abeba o principal ‘hub’ da África Oriental e aposta agora em fazer de Lomé, capital do Togo, um grande ‘hub’ da África Ocidental. A travar a expansão das ligações aéreas está, porém a qualidade das infraestruturas. Muitas foram afectadas por décadas de conflitos, outras por falta de verbas.
Modernização
Mas há esforços em curso para modernizar a infraestrutura aérea africana, como o novo aeroporto a ser edificado no Senegal ou as pistas construídas pela República do Congo tanto em Brazzaville como em Pointe Noire. Existe igualmente o desafi o da segurança, decisivo nesta época de ameaça terrorista global. Sobretudo para as companhias americanas, as exigências são muitas nessa matéria.
A Delta Airlines, por exemplo, teve de adiar em 2009 a abertura de várias ligações para África porque as autoridades americanas recusaram certifi car certos aeroportos do continente. Mas esta empresa, que em 2006 apostou forte nos destinos africanos com a inauguração de rotas para o Senegal e para a África do Sul, está decidida a abrir até ao Verão mais quatro ligações. “Vamos continuar a investir em África. É mais caro operar, mas ganhasse mais”, afi rmou Glen Hauenstein, vice-presidente da Delta, ao ‘Wall Street Journal’.