Marta Cassinda
Luanda
Em Maio, quando os britânicos voltarem a eleger um Governo, Tony Blair estará a fazer 57 anos e segundo especula a imprensa, a partir de conversas com amigos do antigo primeiro-ministro, é sua determinação juntar um belo péde-meia antes dos 60, data em que pensará em reformar-se a sério. E a verdade é que Blair, eleito pela primeira vez em 1997 e reeleito depois duas vezes, está a levar muito a sério esse objectivo.
Desde que deixou o Governo, entregando a pasta a Gordon Brown, o homem que modernizou o Partido Trabalhista e deu nova dinâmica ao Reino Unido tem assinado vários contratos milionários, a começar por um de cinco milhões de libras com a Random House, que em Setembro publicará as suas memórias. Mas há também que ter em conta os dois milhões de salário anual pagos pelo banco americano J.P. Morgan e as 500 mil libras, também numa base anual, que lhe vale a assessoria à seguradora suíça Zurich. Para gerir todos estes novos rendimentos, Blair criou uma dezena de entidades, desde uma fundação com o seu próprio apelido até empresas com nomes como Windrush e Firerush. O jornal britânico ‘The Guardian’, num artigo intitulado “O Mistério das Finanças de Tony Blair”, chegou mesmo a especular se não havia engenharia financeira para passar para a descendência os seus bens sem pagar demasiados impostos. Blair tem quatro filhos com a célebre advogada Cherie Booth, o mais novo dos quais, Leo, hoje com nove anos, foi o primeiro bebé a nascer na residência oficial do chefe de Governo em cerca de século e meio.Pelo menos duas casas foram adquiridas pelo casal Tony e Cherie desde que há três anos Blair deixou funções políticas e se dedicou a tarefas mais lucrativas: uma casa de campo avaliada em 5,7 milhões de libras e uma mansão em Londres de 4,5 milhões.
Além destas, haverá ainda um apartamento de 300 mil libras em Bristol, comprado quando o filho Euan estava na universidade, e uma outra casa londrina, de 1,1 milhões, oferecida ao filho Nicky. Embora critque esta vontade de acumular fortuna, ao contrário da tradição dos ex-primeirosministros trabalhistas, a imprensa britânica não acusa Blair de ilegalidade, mas levanta dúvidas sobre a moralidade de alguns contratos.
Por exemplo, aconselhar uma petrolífera no Iraque depois de ter sido, juntamente com o Presidente americano George W. Bush, um dos entusiastas do derrube de Saddam Hussein em 2003. Ou trabalhar para a família real koweitiana, cujo trono chegou um dia a ser posto em causa por esse mesmo Iraque que Blair ordenou ser invadido embora nunca se tivesse provado que tinha armas de destruição maciça e fosse uma ameaça global. Estes dois negócios foram divulgados por um comité público contra a vontade de Blair, que pedia confidencialidade para não afectar os mercados. E há ainda o problema da sua credibilidade actual como representante do Quarteto (ONU, União Europeia, Estados Unidos e Rússia) para o processo de paz no Médio Oriente. É um cargo difícil, com grandes hipóteses de fracasso, que ainda por cima não tem salário, apenas despesas pagas. Até que ponto não haverá entre israelitas e árabes quem comece a questionar se para o britânico a prioridade é a diplomacia ou a carteira. Em meados de Abril, nos intervalos da acção diplomática no Médio Oriente, Blair estará na Malásia e em Singapura para duas palestras que lhe valerão 200 mil libras. Segundo o ‘The Independent’, o tema será: “Como ter sucesso e ganhar muito dinheiro”
Blair fez os ricos mais ricos
Os milionários britânicos apreciavam muito este líder de esquerda. Com o seu Novo Trabalhismo, Tony Blair conquistou os votos do operariado, mas também da classe média, a quem prometeu bons serviços públicos na educação e na saúde e prosperidade económica. Mas para o seu sucesso eleitoral (três vitórias consecutivas) também contou o generoso apoio de muitos milionários, transformados em financiadores da campanha trabalhista. E um estudo publicado pelo ‘Sunday Times’ pouco antes de Blair sair do Governo, em 2007, mostrava que a sua década de governação tinha sido óptima para os ricos. Assim, desde 1997 o número de multilionários passou de 14 para 68 e a riqueza anual dos mil britânicos mais abonados de 59 mil milhões de libras para 360 mil milhões de libras.