Patrícia de Oliveira
Luanda
As portas de Luanda há um aviário com mais de 22 mil galinhas poadeiras que produzem 15 mil ovos por dia. Chama-se PE CAC (sociedade agro-pecuária do Cacuaco). É provavelmente o lugar onde há mais galinhas em Angola, por metro quadrado. No município de Cacuaco, arredores da capital, toda gente conhece a localização do aviário. Vai-se pela rua da Cerâmica e chega-se a um vasto espaço, com mais de quatro hectares que tem 15 repartições cobertas de rede fina. Cada repartição tem cerca de 1.500 galinhas. À frente deste projecto, que nasceu em 1993, encontra-se Rui Santos, 60 anos de idade. É um homem baixo, simpático, que gosta de calçar botas até ao joelho e não se cansa de vaguear pelo aviário. “Conheço as galinhas como a palma da minha mão”, brinca.
Cada porta de cada repartição exibe uma informação que Rui Santos garante actualizar, todos os dias, com dados exactos: os números de galinhas vivas, das mortas e dos ovos postos. Num país onde escoamento é o grande calcanhar de Aquiles dos produtores, Luanda é o maior mercado da PE CAC. O Hotel Presidente, a pastelaria Maravilha e a rede de supermercados Afribelg são alguns dos seus clientes fixos. A acompanhar a produção de galinhas e ovos, Rui Santos aposta na diversificação, abrindo, dentro do aviário, uma fábrica de ração com capacidade para 60 toneladas semanais. Mas não tem sido fácil: “Adquirir a farinha de peixe que vem da província do Namibe tem sido um caos. É uma matéria importante para a ração a um preço exorbitante: passou dos 650 para os 1500 dólares por tonelada”, desabafa. Longe, porém, vão os tempos mais difíceis, passados na década de 1990: “Na fase de guerra tínhamos de importar o milho, mas não havia divisas. Também sobrevivemos fazendo ração de tudo o que aparecesse como restos de bolacha, fuba e os resultados nem sempre eram satisfatórios.”Hoje, a ração é de primeira. Cada galinha consome cerca de 128 gramas por dia, dando 15 mil ovos diários, o equivalente a 500 cartões. Sendo que os preços variam de acordo com o tamanho do ovo, chegando a render para cima dos 300 mil kwanzas por dia.
Da Gabela a Luanda
Natural do município da Gabela, província do Kwanza-Sul, Rui Santos é o primeiro filho de uma família de três irmãs e fez parte, à escala angolana, do tipo da triste história de miúdos que só vão para a escola muito tarde: “Só aos 11 anos pude ir para a escola, porque os meus pais eram pobres demais”, lembra. Aos 15, foi forçado a trabalhar numa loja onde vendia produtos diversos. Em 1973, troca a loja por um emprego numa fazenda agrícola, ficando por lá durante dois anos. Mal a guerra começou a atingir o Kwanza-Sul, Rui Santos não pestanejou e partiu para Luanda, onde se empregou no Ministério da Agricultura. Mais tarde, em 1978, seguiu para Cuba para fazer um curso básico de incubação.
Voltou no ano a seguir e tornou-se responsável técnico de uma das salas de incubação do Ministério, que funcionava com várias empresas e unidades. A experiência serviu-lhe de rampa de lançamento para os anos que se seguiram. No início de 1980, foi fundada a EA MIL (Empresa Avícola e Multiplicação e Incubação de Luanda) e Rui Gomes foi indicado para administrá-la.
Nos anos de 1990, dá-se o redimensionamento das unidades económicas estatais e, em pouco tempo, é ele que se torna proprietário de uma dessas unidades. Foi assim que, em 1993, Rui Santos entrou para o mundo dos negócios, investindo 25 mil dólares e importando, da Holanda, três mil galinhas. A empresa começou por fazer reprodução do ovo. Inicialmente, os ovos eram importados da Zâmbia e da África do Sul.
Projectos
Já para este ano, Rui Santos pretende apostar na construção de um novo aviário na zona de Bom Jesus (local do futuro aeroporto de Luanda), num investimento que vai rondar os 150 mil dólares. Entretanto, na província do Bengo, deverá abrir uma unidade de incubação de pintos. E tem uma meta ambiciosa: investir 600 mil dólares numa unidade de reprodutores de pintos. Com 40 funcionários, entre os quais um veterinário permanente, sente-se um homem realizado, apesar de ter deixado para trás o seu sonho de criança: ser piloto. E hoje só lamenta não ter herdeiros com vontade de continuar o negócio do aviário. Revela ter uma família, mas que está virada para o outro ramo profissional.