Iracelma Caliengue
LUANDA
A Universidade de Belas assegura que tem estudantes de todo o país, mas critica o estado actual do ensino superior em Angola.
A Universidade de Belas é líder das bolsas internas?
A Universidade de Belas é a que tem mais estudantes bolseiros. E para se ter direito a uma bolsa na instituição, passa-se primeiro por um processo de avaliação. Por exemplo, temos as bolsas de administrador, as bolsas para a Força Aérea Nacional, as bolsas de caridade para a paróquia de Fátima e as bolsas para o INABE. As bolsas para a Força Aérea existem em consideração aos antigos militares daquele ramo das Forças Armadas. Foi um ex-piloto das forças armadas que pensou na criação destas bolsas. E são para serem atribuídas a órfãos de militares de guerra. Durante o ano, oferecemos 30 bolsas de estudo. Temos também 30 bolsas que são distribuídas, por ano, aos jovens da paróquia da Nossa Senhora de Fátima. Por seu lado, o INABE tem aqui cerca de 800 bolseiros.
È verdade que têm estudantes de todo o território nacional?
(Risos). Antes da abertura percorremos todo o território de Cabinda ao Cunene. Neste momento, a Universidade de Belas é a única que tem estudantes de todo o país de uma ponta a outra.
São, ao todo, quatro mil estudantes. E são quantos professores?
A instituição tem mais de 100 professores, permanentes e outros em regime de cooperação. Entre eles, temos professores nacionais, cubanos, brasileiros, portugueses e vietnamitas, para nós, não importa a nacionalidade, mas sim o profissionalismo do docente e a competência.
A investigação científica é o “calcanhar de Aquiles” do ensino superior em Angola?
Existem muitas dificuldades, em termos de pesquisas, devido à fraca bibliografia existente. Os custos alfandegários são elevadíssimos. É, por isso, que parte dos estudantes a nível nacional não faz pesquisas científicas, ou se faz, tem muitas dificuldades em conseguir. A Universidade tem uma biblioteca que está dividida por especialidade, com computadores de apoio ao estudante para pesquisar e assim suprir a falta de manuais. Por outro lado, a Universidade está em fase de expansão em relação à investigação científica. Vamos apostar e usar trabalhos de docentes e discentes, trabalhos estes que vão depender do público-alvo para pesquisa e como base para trabalhos futuros.
Os laboratórios também têm causado problemas em muitas universidades? Tem sentido isso?
Foi investido um valor equivalente a dois milhões de dólares para a criação de laboratórios, sem contar com os valores gastos para ... o resto do material que chega daqui a dias.
E…
… e neste momento, a instituição tem em pleno funcionamento os laboratórios de engenharias e de enfermagem o que perfaz um total de 10 laboratórios em funcionamento para auxiliar cerca de quatro mil estudantes de diferentes cursos.
Que avaliação faz ao material usado para os laboratórios?
Os equipamentos de laboratórios foram conclusões das conversas com pessoas ligadas a universidades e, também para não cairmos na antiguidade, estamos a trazer material de última geração tanto para os laboratórios de enfermagem como para os de engenharia.
Foi mais difícil criar a instituição ou apetrechar os laboratórios?
O mais difícil para uma universidade não é a estrutura, mas sim o apetrechamento dos compartimentos que compõem a instituição. Os laboratórios são o sector que mais dificuldades apresentaram desde a estrutura, material e montagem. Imagine que um laboratório ronda acima de dois milhões de dólares.
A Universidade de Belas participou recentemente no VII Congresso Internacional de Educação Superior em Cuba. Foi positivo?
A participação da Universidade foi bastante positiva. Participamos em debates onde foram abordadas questões relacionadas com as universidades, questões académicas e o profissionalismo. O papel que a instituição deve jogar é de ir ao encontro do necessitado. Por seu lado, a Universidade de Belas levou a este encontro um trabalho de comunicação que vai ser apresentado no próximo congresso em Havana.
E o que acha dos professores cubanos? Podem ser uma aposta para a formação em Angola?
Não podemos ver a questão da nacionalidade. A questão está em ser competente. A chegada de professores cubanos para as universidades é apenas uma resposta à falta de professores nacionais.
Como analisa o ensino em Angola?
Eu diria que o ensino está mal. Devo dizer que temos dificuldades em encontrar qualidade docente e qualidade discente.
Como assim?
Por exemplo, temos docentes com níveis que não lhes deveria permiti exercer o professorado e, por outro lado, temos discentes que a sua competência é idêntica a uma quarta classe.
Como está o convénio com o Instituto Francês?
O Instituto propôs uma parceria para a formação de pós-graduação para os países lusófonos. Entretanto, a Unibelas não viu inconveniente para compartilhar o objectivo do Instituto Francês. O objectivo desta formação
de pós-graduação e de mestrado para a universidade tem como função dar prioridade à formação de docentes da Unibelas. Neste momento, devo dizer que estamos ainda em negociações, portanto, não posso adiantar mais informações.
E tem algum convénio com instituições nacionais?
Os estudantes da área de enfermagem estão a fazer estágios no Hospital do Prenda, no Hospital central da Camama. A Universidade está à espera de uma resposta da Maternidade Lucrécia Paim. Para os outros cursos estamos a trabalhar com algumas empresas que preferimos não citar.
E que projectos tem para este ano lectivo?
Um projecto a ser implementado ainda este ano é a criação de condições para abertura da clínica terapêutica que servirá para as aulas práticas dos que estão a fazer especialidade na área. Esta clínica vai contar com técnicos profissionais cubanos que estão para chegar dentro de dias para formar e atender ao público em geral. Posteriormente vai garantir emprego aos melhores estudantes da área de fisioterapia.
E quanto a expansão. Já há projectos?
A Unibelas tem projectos de expansão até 2011, não ficamos só por Luanda, mas prefiro não dar mais pormenores, “o segredo é a arma do negócio”.
Este ano, a universidade lança os seus primeiros licenciados…
A universidade vai lançar os seus primeiros licenciados, em quatro cursos, nomeadamente, marketing, informática relações internacionais e administração. Espera-se um número superior a 100 estudantes dos três turnos lectivos.