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12/17/2009 
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Edição: I/017 
João Camarão 
João Camarão 

A banca comercial angolana está em reestruturação, podendo nos próximos anos reduzir a taxa de juros interbancária, segundo o especialista português.

O representante do Credirisk, apesar de estar apenas há 15 dias em Angola a desenvolver projectos, já tirou o diagnóstico à Banca. Não tem dúvidas que há muita falta de informação e recomenda maior transparência na relação entre bancos e clientes. E critica o excesso de burocracia.

Quais são os principais riscos da actividade económica em Angola?

Além do risco de crédito que se faz sentir em grande escala na actividade bancária devido a problemas estruturais que urgem resolver, teremos de apontar a avaliação do risco cambial.

É fácil para uma empresa obter crédito?

O crédito às empresas far-se-á de acordo com o conhecimento que se tem das mesmas e não nos moldes em que se trabalha na Europa, mas em termos de rapidez o processo é bastante mais lento e burocrático em virtude de diversas carências e os bancos já denotam evidente preocupação.

Esses riscos são agora mais fáceis de prever?

Sem dúvida que ao nível da supervisão e da modernização da economia angolana têm sido tomadas medidas que visam colmatar essas lacunas e resolver os riscos. Porém nem sempre é fácil prever algumas situações em virtude dos diversos factores envolvidos. Acreditamos que o caminho a percorrer é longo, que existem muitos e interessantes desafios para resolver em Angola e com a união multicultural que se faz sentir esses riscos estarão mais diluídos e consequentemente mais mitigados.

Existe um grande optimismo por parte do sistema financeiro dado o crescimento exponencial do país, às medidas de política monetária e no forte investimento que se faz sentir nos recursos humanos e no aumento da eficiência de processos.

Este risco está intimamente relacionado com factores internos e externos à empresa que podem prejudicar o pagamento do montante de crédito concedido. Como é que os bancos intervêm?

Os bancos já denotam grandes preocupações ao nível da identificação e controlo dos riscos da actividade financeira, para isso recorrem com frequência a entidades externas. Tem havido igualmente um forte investimento ao nível de sistemas, reorganização de processos e de controlo do risco. As instituições financeiras fazem uma análise exaustiva para avaliarem o risco de crédito dos clientes, quer sejam empresas, quer sejam particulares, e têm produtos de crédito diferenciados para cada um destes segmentos de clientes. Para os particulares têm, por exemplo, créditos à habitação, pessoal, etc. e para empresas, têm créditos para aquisição de equipamento, produtos de financiamento de apoio ao investimento.

No caso da concessão de crédito a particulares, o risco de crédito é avaliado com base numa ficha. Quando se trata de clientes com um risco de crédito elevado, devido, por exemplo, ao baixo nível de rendimentos, esse risco é reduzido pela existência de um ou mais fiadores ou de outras garantias de pagamento, por exemplo, bens. Quando o cliente é uma empresa, e dado que os montantes de crédito são normalmente superiores, a análise do risco de crédito é ainda mais aprofundada. A instituição de crédito avalia o risco de crédito também com base numa ficha, mas concebida especialmente para empresas, que inclui informações relevantes como as demonstrações financeiras, os rácios, o historial de crédito (quando existente), etc.

Em que medida é que essa avaliação de risco pode ajudar a economia?

Se houver um controlo adequado do risco na banca, poderemos contar com uma baixa na taxa de juro interbancária a aplicar nos investimentos e consequentemente criar mais investimento externo.

Os riscos nas economias são muito variados e tendo em conta um país emergente com um investimento externo muito forte, como é o caso de Angola, temos de manter sempre o risco em limites muito controlados.

Quais vão ser as principais actividades da Credirisk?

Nesta fase de expansão da Credirisk no mercado dos PALOP’s, posicionamo-nos como um parceiro das entidades financeiras angolanas, na área da consultoria, com vista a uma redefinição de processos de negócio com forte orientação ao resultado. Por exemplo, trabalhamos na eficácia na concessão de crédito, no controlo adequado do crédito vencido, em consultoria estratégica que visa a uma minimização dos impactos do risco de liquidez. Iniciámos projectos junto de dois dos principais bancos angolanos. No Banco Sol, criaremos uma solução de controlo de gestão de crédito desde a concessão até à contratualização e uma solução que permitirá uma maior eficácia na recuperação de crédito vencido. No BPC, vamos reorganizar a contabilidade e a

redefinição total do processo de crédito. Contamos com a ajuda de uma equipa de profissionais com ampla experiência na Banca em Portugal.

Acha que há um número elevado de risco de crédito em Angola?

O risco de crédito em Angola é muito elevado. Ao nível dos processos de crédito que são concedidos na banca, há muitas dificuldades, por exemplo, na documentação, nos comprovativos de morada, na questão dos direitos de propriedade, nos registos quando existe crédito. Até agora não existe capacidade de saber as responsabilidades que os clientes já têm na banca. Isto é um risco altíssimo. Ao nível das empresas também não é fácil obter a informação actualizada. Por exemplo, na Europa, existe a Coface que tem informação disponível e actualizada.

E assim se sabe quem são os accionistas, quanto é que se factura, quanto é que vendeu de um ano para o outro, o crescimento de vendas, qual é a margem financeira, quanto é o retorno do capital dentro destas empresas. Estas informações são muito importantes para se poder fazer uma avaliação fidedigna do risco de crédito.

A decisão da criação da central de risco é muito importante e calcula-se que, antes de Agosto, estará disponível porque agora está numa fase de teste. A parte das empresas, é importante que elas arranjem mecanismos que permitam aos bancos aferir a qualidade das informações prestadas.

Essa falta de informação pode levar os bancos à falência?

Bem, estamos a falar de margens muito elevadas, ou seja, os preços que são praticados aqui, em Angola, são preços muito elevados relativamente aos praticados na Europa. Mas o risco de crédito pode levar à falência se não houver um controlo adequado.

Parece-me que do lado dos clientes também não existe grande esclarecimento face à complexidade bancária. Será que todos os clientes sabem o que é a taxa de juro, o que é que significa a prestação que está a pagar, o que é o prazo, como é que o prazo influencia a prestação? Se tiver algum dinheiro e querer antecipar um contrato, será que ele sabe os procedimentos a seguir? Estas informações não estão disponíveis. Isto é um sinal que reforça a preocupação que deve existir neste sentido. Acho que o BNA tem feito um trabalho com mérito, porque não se pode atacar todas as frentes e resolver os problemas todos de uma vez. Isso seria utópico.

Quais são, de facto, os riscos políticos e macroeconómicos que encontramos no mercado financeiro angolano?

O risco político mais preocupante é a influência que pode originar concessão de créditos sem os devidos factores garantidos, sem o banco estar devidamente protegido e garantido, porque, de facto, o credor é fiável. Existe também o risco político a nível da gestão interna dos bancos. Do ponto de vista macro, existe o risco de liquidez. Existe uma dificuldade dos bancos estimarem a liquidez necessária para cumprir as suas obrigações financeiras e isso pode originar algumas descompensações. Para o ano, haverá necessidade de os bancos demonstrarem estas informações.

É uma medida do BNA que ainda não foi implementada, mas que segue o modelo implementado na Europa, onde os bancos fazem diariamente uma avaliação da sua liquidez no curto e a longo prazo.

Quais são os riscos que já não existem na Europa e que Angola tem?

Diria que é a falta de informação e o risco de câmbio.

Como os bancos devem fazer para fugir deste risco? Os bancos têm que estabelecer um processo integrado e criarem segregações de funções.

Qual a sua opinião sobre o crédito no mercado imobiliário?

É muito especulativo. Além disso há uma margem folgada entre a percentagem de financiamento de 70 a 80 porcento e a desvalorização do imóvel ao longo do tempo. Quando os valores dos imóveis começarem a descer, os clientes já pagaram a maior parte do valor do respectivo imóvel.

Se se conseguir controlar as percentagens de financiamento sobre os imóveis a valores que não sejam superiores a 80% e dada a taxas de juros elevadas, temos um produto por uma garantia real com rentabilidades elevadas num prazo baixo.

Será que o modelo de desenvolvimento português pode ser apropriado para Angola?

Não podemos englobar tudo na mesma forma, porque o modelo português tem as suas virtudes, elementos capazes em diversas áreas, pelo que creio que, por uma questão de proximidade cultural e linguística, o modelo a adoptar poderia trazer vantagens competitivas para o sistema económico angolano desde que identificados quais os seus pontos fracos.

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